Cansada de observar as primaveras sem arrancar-lhe uma flor, a menina, como por impulso, saiu da janela correndo, deixou a porta aberta e saiu para o jardim: roubou três flores, que pôs no cabelo, e se sentiu mais viva: compartilhara, enfim, a estação que passava. Dançou no jardim de casa, sem música, fitando as outras flores vivas – assim pareciam também as que estavam em sua cabeça, mais repletas de vida até do que as outras! -, sentiu o frescor da manhã bater-lhe na nuca e nas pernas despidas. Rodou até cair no chão, exausta, leve e contente. Enquanto girava, refletia, numa doce embriaguez: iria manter-se assim agora, a par com a natureza, verdadeiramente perto de suas folhas nascendo e caindo; bem como das águas que desciam do céu e também do sol que esquentava a calçada. Poderia até voltar a comer maçãs e provar de novo o doce! Voltou para casa, crente e confiante do surto de clareza que, enfim, lhe ocorrera.
Ao anoitecer, olhara-se no espelho. As flores, ainda que vivas, pareciam inadequadas a seu cabelo. Simplesmente não se encaixavam de forma alguma. Ela não sabia, ao menos, como fazer um penteado com elas; nem mesmo sua habitual antiga forma de prender-lhes nos fios servia. Ela, inebriada com o perfume das rosas, atônita e radiante por alguma espécie temporária de esfuziante felicidade, não percebeu que era daquelas que tinha prazo.
É que essa sua recente passada alegria era um pouco fabricada pela saudade de viver. É que todo esse entusiasmo era parte de uma febre de nostalgia, de querer realizar tudo como antes, com a mesma plenitude. A menina tirou as flores, calmamente, de olhos umedecidos e decidiu por voltar a vida de antes, menos feliz, mas verdadeira. Iria, novamente, apenas observar. Privaria-se da felicidade falsa e repentina que sentira. Não conseguia mais, depois de viver a verdade, não poderia contentar-se em se viver inebriada numa alegria passageira – mas tão passageira, que sequer durava-lhe as horas do relógio -, apesar de ser uma boa sensação momentânea e de servir um pouco de consolo para a alma. Era muito pouco; um nada, diante da ternura calma e da simplicidade que já vivera e que carregara consigo.
Felicidade aportava calma, serenidade e um paradoxo perfeito que envolvia êxtase e tranquilidade. Não sabia mais. Adormeceu um pouco mais seca – percebera isso porque sequer se emocionou com os passarinhos na janela, tampouco se impressionou com a hora tardia em que acordou, sem se notar falta das horas perdidas. Olhou a janela à tarde, tudo florido e um sol lá no alto e sentiu: a vida que era sua antes realmente não existe mais. Por vezes, distrai-se e adormece, esquecendo de olhar lá fora se a estação mudou.